Nasci no dia 4 de fevereiro de 1957, no Bairro de Botafogo na linda Cidade do Rio de Janeiro, contudo, passei a infância e a primeira fase da adolescência na Ilha do Governador, onde meus pais moravam, que era considerada zona rural da cidade.
Quando eu era menino, lembro-me bem, meu pai nos levava frequentemente a passeios pelos morros da Ilha do Governador. Por matas e barrancos apreciávamos as paisagens e sentíamos os deliciosos cheiros das plantas, flores e árvores, muitas vezes misturados aos odores do mar trazidos pelo vento que nos batia à face. Um blended de odores deliciosos que não sai nunca mais da memória.
No mundo material atual não existe nenhuma evidência de que esse tempo existiu. Os morros foram ocupados por favelas, as matas sucumbiram e os odores são terríveis em face da grande poluição ambiental. Mas como negar a existência do que fiz, do que senti e me lembro como se nunca tivesse deixado de existir?
Assim como os traumas marcam a existência, os bons momentos também a marcam e o que já não existe numa época, jamais deixará de existir para quem guardou na memória os registros de épocas anteriores, pois as lembranças transcendem a materialidade e permanecem como verdades em nossas vidas.
Victor Hugo, escritor francês (1802-1885) escreveu a frase: “O futuro tem muitos nomes: para o fraco, é o inalcançável; para o medroso, o desconhecido; para o valente, a oportunidade.” O futuro também é uma derivação da memória que analisa os fatos pretéritos e presentes, projetando hipóteses tão fáticas quanto aos tempos passados que já não existem.
Em minha opinião, Cláudio Coutinho, ex-treinador da Seleção Brasileira de Futebol, conseguiu materializar as genialidades das mais brilhantes idéias dos principais jogadores do mundo. O que era feito quase instintivamente pelo talento de alguns, passou a ter nome e estratégia. Lembro-me da discussão sobre o ponto futuro, que consistia na observação do posicionamento da zaga adversária e, se favorável, o lançador executava um passe em profundidade para ninguém. O jogador que deveria receber o passe surgia no momento exato, aproveitando os espaços deixados pela zaga e dominava a bola ficando somente com o goleiro à frente.
Esta jogada não era inédita, ao contrário vários craques do futebol já a utilizavam, sua genialidade foi conseguir expressá-la de modo concreto, estabelecendo, inclusive, as condições em que a jogada teria maior ou menor probabilidade de dar certo.
Rubem Alves escreveu um livro de crônicas intitulado Tempus Fugit – quer dizer "o tempo foge". A vida é breve. Dele, reproduzo um pequeno trecho: “[...] Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio... [...] De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: Tempus fugit. [...] Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será... .”.
O tempo precisa ser entendido pelo ser humano como algo dinâmico, que nunca para e cuja menor fração possível de ser marcada estabelece o tempo presente, uma linha tênue entre o passado e o futuro. Os parágrafos acima fazem parte do passado, os próximos, farão parte do futuro e este é o presente até que surja o ponto final.
É por isso que as memórias são ricas em estórias e, estas, formadas por inúmeros conjuntos de valores que passam como um flash no presente em direção ao futuro. Compreendendo desta forma a questão do tempo, podemos dizer que vivemos em três dimensões temporais simultaneamente. O passado, presente e futuro. Se observarmos com atenção, estamos diante da representação da eternidade. O tempo que passou, o tempo que passa e o tempo que virá.
Na história humana existem fatos com o condão de modificar os valores pessoais e sociais de tal forma que, para melhor didática, se divide a história em períodos. Devemos entender tais fatos como o fruto de um longo processo de desenvolvimento social, cultural e científico. Ainda por uma melhor didática, os acadêmicos elegem um acontecimento como um marco divisor de períodos ou épocas, assim, temos inúmeros acontecimentos que simbolizam uma transição histórica, tais como: a Revolução Francesa, a II Guerra Mundial, e muitos outros. Embora a didática seja aplicada para facilitar a compreensão, reside em sua exacerbada aplicação uma distorção cartesiana, isolando os fatos em detrimento dos conjuntos de valores em que os mesmos se inserem.
É curioso como os historiadores estão sujeitos, em sua pesquisa e produção literária, a encontrarem ou, até mesmo, ao risco de criarem fatos putativos, tamanha as variedades de interpretações e interesses nos registros das fontes documentais. Talvez seja esta a razão pela qual o ser humano pense dogmaticamente, para não se esquecer dos fatos nem das suas mais importantes interpretações. Os dogmas servem para isso, aprisionar os pensamentos e as idéias.
Comum é ouvir que dogmas são coisas de religião, contudo, existem muito mais dogmas no meio acadêmico do que em qualquer religião. Isso, porque todo pensamento sistematizado é um dogma. A ciência é a rainha dos dogmas, a culinária pode ser dogmatizada e, até mesmo, o avião que encanta os poetas como se fosse pássaro livre, não sairia do chão sem uma estrutura e procedimentos dogmáticos.
Vamos consultar um dicionário para ver o significado de algumas palavras, no caso, o Aulete Digital. a) Dogmatismo: 1 Convicção absoluta, sem abertura à crítica, da verdade de dogmas religiosos ou ideológicos; 2 Ação ou pensamento de quem se guia por princípios considerados incontestáveis; 3 Fig. Atitude arrogante de quem se julga dono da verdade; 4 Fil. Rel. Doutrina que admite a existência de verdades certas e irrefutáveis, que podem servir de base a sistemas religiosos ou filosóficos; 5 Fil. Para Kant, doutrina de que é possível haver sistema de pensamento aceitável sem crítica; 6 Na história da medicina, sistema que se baseava rigidamente na doutrina do mestre – b) Dogma: 1 Rel. Ponto básico de doutrina religiosa, considerado certo e indiscutível; 2 Fig. Qualquer doutrina que se apresenta como verdade indiscutível e portanto deve ser aceita sem contestação; 3 Ideia ou preceito apresentados como irrefutáveis; 4 Em religiões, doutrina que se apóia na autoridade de sua fonte, que deve prevalecer sobre qualquer dúvida dos fiéis; 5 Hist. Na Grécia antiga, decisão de autoridade, o soberano ou assembléia.
Mas os dogmas não aprisionam somente idéias e pensamentos valorosos e virtuosos. Eles potencializam as tendências de radicalizações, neuroses, deficiências cognitivas e valores dialeticamente opostos ao bem. O bom, algumas vezes, pode servir de oposição ao bem, assim como, o bem uma vez dogmatizado como forma comportamental, pode ser dialeticamente oposto ao próprio bem idealizado. Vejamos na prática: socorrer vítimas de tragédias é um bem universal, porém, manter um programa permanente que objetive somente a alimentação de excluídos socialmente pode ou não ser um bem.
Vivemos enclausurados em dogmas: verdades, idéias, preceitos, todos irrefutáveis, de tal modo, que orientam nossas ações, nossos desejos, o cotidiano. Dizem que a vida sem os dogmas se tornaria em uma grande anarquia, repleta de comportamentos desviantes. Toda a experiência, virtude, conhecimento, valores, aprovados pela humanidade estão contidos nos dogmas. É por isso que vivemos sem pensar e pensamos sem viver, está tudo dogmatizado. Tempus fugit, carpe diem, ponto futuro, morros e matas de uma ilha encantada, oportunidades.
Porém, apesar do imenso poder dogmático, existem elementos que os dogmas têm dificuldades em definir e estabelecer regras, vejamos: o amor, o imaginário crítico, sonhos, lembranças e o tempo, são elementos muito resistentes a dogmatização.
É preciso esclarecer que não ser dogmático, não significa repudiar os valores contidos nos dogmas e sim, refletir sobre tais valores permanentemente, para que seja pleno o exercício de nossa racionalidade, o que nos diferencia de todas as criaturas conhecidas.
Vinícius de Morais escreveu um poema magnífico, coincidentemente intitulado Ilha do Governador, impossível ser lido sem adentrar suas lembranças, sem compartilhar com o poeta sua história de vida no tempo de seu relato. E imerso nos versos os ei-ou dos pescadores marcam o tempo que foge, fazem tremer os dogmas e ligam as lembranças, o presente e o futuro.
Ilha do Governador – Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro
Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?
Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Suzana - ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.
Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti - sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… - ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos - eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.
Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…
Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?[1]
Amor, imaginário crítico, sonhos, lembranças e o tempo são as ferramentas que ajudam a superar os efeitos do senso comum produzido pelos dogmas e possibilitam a coexistência entre os valores dogmáticos e a consciência crítica, permitindo o autoconhecimento, a auto-escolha de valores que determinaram o eu ser humano e o eu ser humano social de forma racional e única.
Ao inaugurar este blog, cuja pretensão é abordar os mercados em forma de aforismos, julguei necessário ordenar alguns temas e valores os quais pretendo explorar. Como bem define Rubem Alves – “eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar”.
Assim como os raios surgem por um processo físico em meio às nuvens carregadas de energia, os aforismos surgem das memórias carregadas de valores, amores, histórias e uma grande quantidade de crítica cognitiva que eclodem no tempo de sua maturidade unindo, sapientemente todos os tempos, iluminando as histórias e clareando o porvir. Enganam-se aqueles que pensam que os aforismos são pensamentos soltos, frases ou pequenos textos impactantes, mas isolados de uma estrutura científica, cognitiva. Aforismos são enológicos, precisam ser estudados e produzidos igual ao bom vinho, com valores, amores, histórias e uma grande quantidade de crítica cognitiva que eclodam no tempo de sua maturidade.
Abraços,
WW
[1] Moraes, Vinícius de. Forma e Exegese. 1934 http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/article.php3?id_article=45 acessado em 30/04/2011
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